terça-feira, 13 de abril de 2010

Maratona de Santiago 2010

Quem corre, sabe. Uma maratona começa quando você decide corrê-la. Aí começam os planos de treinamento e as pequenas ansiedades relacionadas a detalhes como a alimentação, o vestuário e a estratégia para o percurso. Pequenas, mas crescentes com a proximidade da prova.
A Maratona de Santiago começou para mim quando tive a certeza de que passaria uma temporada de seis meses no Chile, período durante a qual a maratona se realizaria.


Avaliando o percurso, notei que apresentava alguma variação de altimetria, novidade para mim, que costumo correr em Recife, uma cidade essencialmente plana.
Então, às ladeiras! Foram alguns meses de treinos no Cerro San Cristóbal. Irregulares em razão dos compromissos que me levaram ao Chile, mas fortes. Desenvolvi força e fôlego que não imaginava. Estava treinando pesado e julgava que nunca havia estado em tão boa forma. Providenciei uma bandeira brasileira: queria fazer bonito e bater uma bela foto na chegada.
O joelho me preocupava um pouco: na preparação para minha primeira maratona (Porto Alegre, 2009) havia lesionado o joelho esquerdo e acabei correndo a prova com muita dor. Mais tarde, iria descobrir o quanto foi importante completá-la, ainda que caminhando e mancando por cerca de 12 km. Assim, carregava nas subidas e fazia as descidas de maneira mais cômoda possível, sempre observando o comportamento das articulações. Tudo tranqüilo.
Maratona se avizinhando, dei uma folga nos treinos na segunda quinzena de fevereiro para um merecido descanso com a família. Ninguém imaginava o que nos estava reservado: um terremoto de 8,8 graus na escala Richter que atingiu fortemente o Chile em 27/02. Experiência traumática - da qual saímos bem, o país, nem tanto - que interrompeu minha preparação por mais 10 dias.
A organização da prova convidou seus participantes a expressar seu apoio às vítimas propondo a formação de uma enorme bandeira chilena com as cores das camisas oficiais da competição: vermelho para os 10 km, branco para a meia maratona e azul para a maratona. Não podia deixar de fazer a justa homenagem ao país que tão bem me recebeu: decidi que também chegaria à meta com a bandeira chilena ao lado da nossa.



Resumo: estava sem correr há 3 semanas e faltava pouco mais de um mês para a Maratona (11/04). Revendo os planos, decidi investir em uma escala crescente de longões em ritmo forte, os quais seriam reduzidos faltando 15 dias para a prova. Comecei com 15 km e, em seguida 18 km de puros sobe e desce em ladeira. Confortáveis, estava descansado.
Confiante, desci para o plano e fiz uma meia maratona sem muito esforço em 1h53’. Fiquei surpreso, meu melhor tempo em meia maratona é de 1h49’. No entanto, assim que esfriei, a péssima notícia: uma dor intensa na lateral externa do joelho direito que me fez voltar mancando para casa. Preocupado, investiguei na Internet e do alto de meus escassos conhecimentos ortopédicos (?!) me diagnostiquei uma síndrome da banda ou do trato ílio-tibial, o famoso “joelho de corredor”. Do que entendi, trata-se de uma bursite. Tratamento: analgésico para a dor e gelo para desinflamar.
Descanso de 4 dias e, sem dor, voltei à pista. Ressabiado, diminui a dose no treino para avaliação. Terminada a sessão, respirei duplamente aliviado: 10 km sem dor! Senti-me à vontade para novo longão: outra meia maratona no plano a 1h54’, sem esforço. Sinal amarelo, a dor voltou ao final do treino.
Mais 3 dias de gelo e descanso e volto para nova sessão de 10 km. Completei, mas, pela primeira vez, senti que a lesão estava lá durante a sessão, no km 7. Uma vez esfriada a musculatura, a dor era intensa a ponto de não conseguir flexionar o joelho. Desesperei: dei uma semana de repouso absoluto para que o joelho desinflamasse e pudesse correr a maratona sem dor.
Faltando apenas 7 dias para a maratona, fui para a praça: dei uma volta de 2 km e a dor estava lá, em sua plenitude. Decidi que tentaria correr a maratona em ritmo leve, poupando o joelho ao máximo e evitando qualquer mínima irregularidade no asfalto. Estudei o percurso e vi que se a dor apertasse até o km 11, poderia optar pelo percurso da meia maratona e abreviar a corrida. Previa que se a dor me fizesse parar e, conseqüentemente, esfriar, eu não conseguiria terminar.



No sábado, na feira promovida pela Maratona, encontrei os amigos pernambucanos e também um outro brasileiro (não estou certo, mas acho que baiano), com uma prótese em sua perna e que iria correr os 42 km. Senti a mais pura admiração.

 
Estratégia traçada, botei no bolso as bandeiras, algum dinheiro para o provável táxi de retorno a casa e o celular para avisar à esposa se algo desse “muito” errado. Atrasei na saída de casa e acabei desencontrando dos amigos corredores do Brasil (Acorja) e do Chile (VRT). Imaginei que os encontraria no percurso. Temendo que a dor aparecesse antes mesmo da largada, sequer aqueci ou alonguei.
Chi, Chi, Chi, le, le, le, !VIVA CHILE!

Tiro de canhão! O corredor que estava à minha frente se vira para trás e me deseja boa prova. Em português! Era o baiano da prótese! Mais que admiração, nesse momento, fiquei orgulhoso de poder compartilhar a corrida com ele. “Boa prova!”, lhe retribui.
Saio em ritmo confortável, aquecendo, e faço os primeiros 5 km a 5’30/km. Na placa do km 5, o joelho avisou que estava lá, mas sem dor. Continuei correndo a 5’30/km até o km 17, quando a dor apertou. Antes confiante - havia desconsiderado o desvio da meia maratona - agora pensava “Se eu parar, eu não termino”. Reduzi o ritmo nos 3 km seguintes e não agüentei. Dor insuportável.
Parei uns 400 m antes do ponto de apoio do km 21 e, tendo visto uma ambulância, fui mancando até ela pensando em pedir algum auxílio. Quando me faltavam uns 50 metros, a mesma disparou, me deixando pasmo. Só aí me dei conta que ela não era da organização, estava esperando que o trânsito fosse liberado pela organização da prova para seguir o seu destino, assim como os demais carros na avenida. Liguei para a esposa e avisei que minha maratona havia acabado, que apenas continuaria para ver até onde dava e que se despreocupasse de me esperar na linha de chegada...
Cheguei às bancadas de apoio do km 21: água, gel e repositor hidroeletrolítico (vá lá, GATORADE) para tentar retomar o ânimo. Aí, lembrei que em minha primeira maratona, com uma lesão distinta, consegui terminar a prova lesionado fazendo uma corrida esquisita, quase uma marcha atlética, mas sem rebolado. Não levantava quase a perna e dava passos bem curtos e rápidos. Elaborei: vou mancar até onde der e tentando encaixar algum trote ou corrida.
Assim que saí do apoio, encontrei uma chilena caridosa que, vendo meu sofrimento, me perguntou se queria alguma “medicina”. Perguntei se tinha diclofenaco e ela, sem saber do que se tratava, me ofereceu um creme de nome Metaflan. Se fosse colírio eu teria aceito, risos! Fiz uma rápida massagem na articulação, agradeci muito e saí naquele passo de “ponto e vírgula”. Imediatamente pensei: “Sabe mais o quê? Não sei se chego ao final da prova, vou vestir as duas bandeiras aqui mesmo e homenagear a todos que estão no percurso apoiando os atletas”. Bandeira chilena à frente e a do Brasil atrás.
Decisão acertadíssima. Comecei a notar que os incentivos voltavam-se sobretudo a mim. Imaginem a cena: lá vem um camarada mancando, vestindo uma bandeira do Chile sobre a camisa oficial do evento, faltando 21 km para o final de uma prova organizada de forma homenagear as vítimas do terremoto. Parecia eu mesmo uma vítima, risos. E o pessoal gritando “!Ánimo!”, “!Se puede!”, “!Lo peor ya ha pasado!”.
Quando eu passava por eles e notavam a bandeira do Brasil atrás, gritavam ainda mais: “Fuerza, Brasil”. Em retribuição, eu gritava: “!Hoy día, Chile adelante!”, “Por Chile, lograremos” o “hoy soy brachileno”. Os chilenos realmente gostam de nós, brasileiros. Espero que saibamos retribuir esse carinho em terras tupiniquins.
Esse incentivo ajudou demais. Com o aquecimento do joelho, a dor diminuiu um pouco e já começava a correr mancando, desajeitado, mas correndo. Os kms foram passando um a um e comecei a fazer contas para ver se completaria o percurso dentro das seis horas, tempo máximo da competição. Achei que dava e isso me animou a continuar.
Mais um chileno amigo e anônimo com um tubo de pomada. Já estava conseguindo “correr” a 8’30/km. No km 27, o problema mudou de figura. Com a compensação muscular e o novo estilo de corrida, começaram a aparecer câimbras nas panturrilhas, coxas e virilha - sobretudo no lado esquerdo, sacrificado - problema do qual não me lembro em 3 anos de corrida. Pela primeira vez, interrompia uma corrida para fazer alongamentos.
Alonguei e segui até o km 30, momento da prova em que a altimetria da prova mudaria. Agora seria só descida. Necessitei adaptar novamente o trote e as câimbras dobraram. Daqui ao km 41, foram de uma a duas paradas por km para alongar. O tempo ganho com o auxílio da gravidade era prontamente investido esticando a musculatura muito dolorida. Já nem lembrava do joelho...
Do km 30 ao 39, uma boa média de 8’/km. Diante da perspectiva de completar a prova, liguei mais uma vez para a esposa em uma das paradas para alongamento no km 37 e pedi que fosse me esperar na chegada. Ela não sabia, mas estava mais preocupado com um apoio para me levar de volta a casa (a 2 km do local da prova) que com qualquer comemoração pela – agora, provável - conclusão. Nesses kms me dei conta do esforço feito por aqueles que se propõem a correr e a concluir uma maratona mesmo sem a devida preparação. Vários deles passaram por mim e, mesmo com suas próprias dificuldades, me direcionaram palavras de motivação. Respeito-os muito.
Fiz as contas: “Se eu correr esses últimos 3 km um pouco mais rápido, a 7’20/km, consigo fazer a prova em SUB-5!”. Diminui o tempo nas paradas para o alongamento dos kms 40 e 41. Neste momento, foi de suma importância a presença do amigo chileno Oscar Chau, integrante do Vespucio Runners Team, grupo que tão bem me acolheu, ainda que eu pouco comparecesse às suas atividades. Ele vinha me acompanhando de bicicleta nos últimos km e na marca dos 41 km desceu de sua magrela e correu ao meu lado. Em agradecimento a ele, despi as bandeiras e propus que segurássemos cada um de nós nossas bandeiras, unidas por alfinetes de segurança (simbólico, não?). Infelizmente tivemos de nos separar no corredor de acesso ao portal de chegada, pois ele não poderia entrar de bicicleta.
Fiz os últimos 1200 m a incríveis 6’15/km e cruzei a linha de chegada a 04h59’59’’ empunhando as bandeiras para logo depois abraçar minha filha e desabar no chão.



SUB-5! SUB-5! SUB-5!
(nunca pensei que pudesse comemorar tanto esse resultado)

Enquanto descansava e repunha algo de água e carbohidratos, escutei que o vice campeão da meia maratona era brasileiro. Fiquei muito feliz. E olha quem eu encontro no metrô, voltando para casa: o próprio, Antônio da Costa, feliz da vida. Parabéns!


Quanto à organização da prova, não há o que dizer, absolutamente nada. Tudo como deveria ser. Parabéns à organização pelo carinho dedicado. Parabéns ao Chile, pela receptividade de seu povo. E ao seu povo, pelo belo país que cultivam. Que a vida regresse ao normal o quanto antes e, dessa maneira, percebo que será mais breve que o esperado.

6 comentários:

Ésio Cursino disse...

MÁRCIO, VOCÊ E PAULO SE SUPERARAM, ESPERO QUE NUNCA ACONTEÇA COMIGO, PORQUE SOU MUITO FROUXO E PARO NA HORA, PARABENS.

Jorge disse...

Olá Márcio, boa tarde parabéns pela conclusão da Maratona de Santiago e pela superação que vc teve, pelo visto é uma corrida desafiadora e que legal a foto sua vc concluindo a maratona com 2 bandeiras...Parabéns e continue firme e forte.

Valeuuu!!!

Um abraço,

Jorge Cerqueira
www.jmaratona.com

Márcio Santana disse...

Ésio, frouxo? Você está é louco, risos. Um camarada que já tem umas 20 maratonas com ano e meio de corrida pode ser qualquer coisa, menos frouxo, risos...
Jorge, há quanto tempo, dei uma diminuída (posso dizer parada)na leitura dos blogs dos amigos por conta dos meus compromissos aqui pelo Chile, mas é sempre bom revê-lo (relê-lo). Obrigado pela força. Quero fazer a maratona do Rio ano que vem (este ano não dará...) e encontrá-lo para um abraço.
Saudações,
Márcio

Stéphanie Perrone disse...

Oi! Depois de muito tempo sem comentar em blogs, aqui estou, hehe

Parabéns pela prova e pela superação que tivestes. não sei se aguentaria dessa forma, acho que parava pelo caminho, hehe.

ficou linda a foto da chegada com as duas bandeiras!!!

e ai, vem correr Porto Alegre este ano?

abraço,
Stéphanie
http://tephyperrone.blogspot.com

Mari disse...

Oi Márcio, me emocionei com seu relato, quando passei por ti não lembro bem o km, não percebi teu sofrimento, muito pelo contrário te achei super bem, te desejei boa sorte e segui, sofri tb. naquela corrida, a princípio foi a maratona mais sofrida que já fiz, mesmo assim adorei, concluí super feliz e emocionada.

OPS: achava que tinha sofrido na maratona de Santiago, mas sofrimento mesmo foi a de São Paulo no último 02/05, nossa como foi difícil,ainda convalescente de uma gripe que insiste em querer me derrubar mas não vai, o clima estava quente, seco, muitos túneis, ainda sinto dores nos músculos, enfim, eu conclui esta danada de cara feia porém felissíssima......
bjus......

Márcio Santana disse...

Oi Marinês, nos encontramos acho que perto do km 28 e eu já estava, creio, resignado com a dor, risos. E eu nem sei se cheguei a rir quando te vi, pois estávamos ambos com as bandeiras chilena e brasileira hasteadas, mais risos.
Não tenho planos de correr São Paulo, mas também já ouvi falar que o clima por lá não ajuda muito. Gripada? Essa cearense não tem juízo... Eu não sairia nem de casa, que dirá, correr uma maratona. Parabéns!
Já estou em Recife, mas voltando aos poucos para avaliar o joelho.
Saudaçoes do amigo,
Márcio